Árvores, estradas e qualidade de vida: repensar o nosso espaço urbano

Há algo que me inquieta sempre que penso no espaço urbano atual: a forma como nos habituámos a viver rodeados de cimento, asfalto e prédios, quase sem verde à volta. Aceitamos isso como normal — mas será que devia ser? Existe até um conceito chamado shifting baseline syndrome (National Park Service): cada geração cresce a aceitar um ambiente mais pobre em natureza do que a anterior, sem perceber que estamos a perder qualidade de vida aos poucos.

O poder das árvores no espaço urbano

Um exemplo simples, mas poderoso, é a arborização das ruas. Imaginemos estradas onde, entre o passeio e a faixa de rodagem, temos linhas de árvores — de ambos os lados. Essas árvores não servem apenas para “embelezar”: elas criam sombra, reduzem a temperatura (combatendo as ilhas de calor urbanas), melhoram a qualidade do ar, aumentam a segurança dos peões e até ajudam os condutores a moderar a velocidade naturalmente (Alvarez-Diaz & Villalon). Além disso, funcionam como corredores verdes para a biodiversidade, ligando diferentes ecossistemas urbanos (Iberdrola).

O equilíbrio que precisamos

É verdade que hoje existe um movimento claro para reduzir o número de carros nas cidades — e faz todo o sentido, sobretudo no centro urbano, onde alternativas de transporte público são mais eficazes. Mas eu vivo fora da cidade. Para mim (e para muitos outros), o carro não é um luxo: é uma necessidade. Os serviços estão longe uns dos outros e os transportes públicos simplesmente não dão resposta.

Por isso, não se trata de “acabar com as estradas” para plantar árvores. Trata-se de repensar o desenho urbano para que estradas e árvores possam coexistir. Continuarmos a ter vias funcionais para quem precisa de carro, mas ao mesmo tempo recuperar espaços verdes que nos devolvam bem-estar, conforto e beleza.

Uma visão mais harmoniosa

Cidades mais verdes não significam apenas menos poluição ou mais sombra. Significam também mais saúde mental, mais interação social e até mais segurança. Estudos demonstram que áreas urbanas com maior presença de verde têm impacto direto no bem-estar físico e psicológico dos cidadãos (Urban green space — Wikipedia).

No fundo, o que está em causa é o nosso estilo de vida. Queremos ruas que sejam apenas funcionais, feitas de betão e trânsito? Ou queremos ruas que sejam também lugares de harmonia, mais bonitos, mais humanos? Eu acredito que podemos — e devemos — ter ambos: estradas que nos permitam viver e trabalhar fora da cidade, mas integradas com a natureza que nos faz tanta falta no dia a dia.


Referências:

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